Alegria, descontração e criatividade, características marcantes do baiano, têm sua expressão máxima no Carnaval. Durante uma semana, a cidade vive seu momento mais democrático, levando para a rua pessoas dos mais diferentes níveis sócio-econômicos e culturais. É o momento em que ricos e pobres ocupam o mesmo espaço e se divertem em uma festa onde as desigualdades sociais se diluem na euforia carnavalesca.
Terra de todos os santos e de todos os deuses, a Bahia é o maior centro de sincretismo religioso do Brasil.
A Bahia é sinônimo de alegria e quando se fala em alegria lembra-se do carnaval de Salvador. Mercado de alegria?
Essa pergunta nos faz refletir. Será que a indústria do axé está transformando alegria em fonte de renda?

Existe até o “oscar” baiano, que é o troféu dodô e osmar. Os indicados lançam modas de cima dos trios elétricos. Modas surpreendentes, irreverentes, emocionantes. Que podem nos chocar e emocionar. Que nos fazem rir ou chorar, mas sempre nos encantam.
Na Bahia, a industria do axé já desenvolveu um mercado ainda não identificado pelos teóricos de plantão. Alguns chamam de economia do lúdico, do lazer, ou mesmo do ócio, pouco importa. O que importa mesmo é constatar que nunca foi tão lucrativo se investir na alegria.

Estima-se que só o Carnaval baiano represente 1% do PIB do Estado. O dado não computa todos os negócios do axé, como a exportação de músicos e eventos para outros Estados e os milhões da indústria fonográfica. A alegria contribui na geração de empregos, recolhimento de impostos e novos investimentos. Aponta também para outra sutileza interessante. Ao contrário do que se acredita, em Salvador tudo acaba em festa não porque o baiano é preguiçoso, mas porque quando há festa, há trabalho e, portanto, também o pão.
O Carnaval de Salvador dura mais dias que antigamente. Dura mais que qualquer outro do mundo e já tem moeda própria: o ABADÁ.
Durante todo ano, jovens e adultos, homens e mulheres, pagam à prestação o uniforme dos blocos ( ABADÁS ), para vendê-lo na época da folia, que pode ter o seu valor triplicado na véspera da ferveção. Quem trabalha nos bastidores, fazendo acontecer a alegria, também pode receber em “abada”. "Com tudo isso, Salvador se tornou uma cidade maníaca onde todo mundo tem de ser alegre para alimentar a economia do simbólico", analisa o escritor Antonio Risério. Para ele, o que se faz não é arte, e sim diversão. "Mas não há dúvida que rende muito dinheiro e emprega muita gente."


O Carnaval é uma data tão importante para o baiano que divide o calendário anual em antes e depois da festa. Salvador pára para cair na folia. Os ritmos tocados são variados, podendo ser axé, samba, e outros inventados e reinventados a cada ano, chegando até a música sacra, com uma passadinha pela clássica e erudita. Baianos, brasileiros de norte a sul e turistas do mundo inteiro transformam-se em foliões. O sagrado e o profano se misturam. Isso é o carnaval de Salvador. É arte pura. Participam ainda do Carnaval da Bahia os cantos-danças-afro e os afoxés, que se atualizaram de forma mais distante das culturas africanas que os geraram, aproximando-se das criações de letra e música já existentes no meio urbano , procurando uma linguagem e uma apresentação mais próxima da realidade que vivem.

Enquanto a Bahia for sinônimo de alegria vai-se enchendo o cofre.
Na Bahia, as festas religiosas e profanas duram o ano inteiro, e a terra é tão cativante que, ao conhecê-la, muitos estrangeiros a adotam, como aconteceu com o escultor Carybé, artista plástico argentino que desde 1938 e até sua morte, em 1997, viveu em Salvador. Outros, como o fotógrafo e antropólogo francês Pierre Verger, não só a adotou como dedicou a vida a estudá-la e expor em suas principais obras o sincretismo religioso local. Daniela Mercury, Ivete Sangalo , Caetano Veloso, políticos e outras estrelas transformam o ano inteiro em Carnaval.
A Bahia é a mais perfeita síntese do Brasil em termos artísticos, místicos e musicais. Nenhum outro estado assimilou tão bem a mistura do africano, do indígena e do lusitano em sua cozinha, na cultura e na religiosidade.

Somou essas três raças de tal forma que terminou irradiando sua influência para toda a nação. O Estado, no entanto, continua a ser o maior centro de Candomblé no País, religião de origem africana que convive lado a lado com a igreja católica. Nas cerimônias, babalorixás, ialorixás e iaôs (pais, mães e filhas de santo) vestem roupas típicas, dançam e cantam ao som de atabaques e agogôs e fazem oferendas aos santos. Esses rituais invocam os Orixás, entidades que têm correspondentes entre os santos católicos. A convivência, porém, entre esses cultos e a igreja católica não é e nunca foi fácil. Durante longo tempo as lideranças católicas pressionaram a polícia para reprimir o Candomblé e, mesmo depois de relativamente aceito, a igreja continuou punindo padres e freiras mais tolerantes com o sincretismo.

Os blocos de carnaval se tornaram grandes organizações, alguns com linha de produtos que vai de roupas a cosméticos. Cursos de percussão, teatro e dança criam uma nova geração de artistas. Com um ambiente tão propício, muitos adolescentes na Bahia sonham com o estrelato como se fosse uma vocação natural, uma herança que receberam só por nascerem onde nasceram. O que Dorival Caymmi dizia, e que hoje é repetido pelo publicitário Nizan Guanaes, continua mais válido do que nunca:

"Baiano não nasce, estréia."

WE ARE THE WORLD OF CARNAVAL

Ah! Que bom você chegou
Bem-vindo a Salvador
Coração do Brasil
Vem, você vai conhecer
A cidade de luz e prazer
Correndo atrás do trio
Vai compreender que o baiano é
Um povo a mais de mil
Que ele tem Deus no seu coração
E o Diabo no quadril
We are Carnaval
We are, we are folia
We are, we are the world of Carnaval
We are Bahia
( letra de Nizan Guanaes )

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